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O fim (dos verdadeiros) locutores esportivos

Por Flávio Araújo(*)

Leio interessante entrevista com o narrador Galvão Bueno e tiro algumas ilações que me desligam de meu passado profissional e me colocam na atual realidade. “Tudo muda, tudo passa neste mundo de ilusão” já cantou o poeta. Galvão é sem dúvida um fenômeno nas transmissões esportivas e jamais nenhum narrador de esportes atingiu tal culminância e durabilidade no comando de um veículo tão importante como a Globo. Apesar dos anos que podem ou não lhe pesar mantem-se em forma e o que mais, evolui. É verdade que os titulares prolongam ao máximo seus reinados e dessa forma impedem que sucessores ocupem o trono. Dois detalhes importantes retirei da entrevista de Galvão e que julgo de interesse daqueles que acompanham estes modestos escritos. O locutor esportivo deixou de ser o narrador do espetáculo imprimindo a fidelidade que em meu tempo era marca registrada do bom profissional. Buscávamos, sim, dar o máximo de emoção a nossas narrativas, mas jamais falseávamos na crítica e a verdade era a tônica dominante em nossa missão. Ou seja: éramos jornalistas executando uma missão profissional que queríamos colocar no ponto mais alto da respeitabilidade e da confiança de quem nos ouvia. Hoje o narrador esportivo é antes disso um animador de espetáculo, tem de executar um trabalho mais para animador de auditório, tem de ser mais Chacrinha e menos Pedro Luis. Para quem gosta, ótimo. Segundo esse caminho o objetivo é prender audiência e não ser crítico do que narra. O segundo ponto é ainda pior do meu ponto de vista. Estão acabando os locutores esportivos. Focalizei esse aspecto numa longa entrevista com Milton Neves no domingo passado quando me ligaram da Bandeirantes. Parece que não gostaram do que expus, mas mantenho minha posição. No interior nasciam os valores que iam brilhar nas grandes equipes esportivas da Capital. Houve época em que na Bandeirantes não havia um só locutor esportivo que não houvesse iniciado carreira no interior. Acontece que com o predomínio das redes, Bandeirantes, Jovem Pan, o radio do interior não transmite mais futebol. Com raras exceções. O narrador já começa pela televisão e permitam que o diga: os bons são os que nasceram no rádio e os que ainda estão na ativa são os últimos dos moicanos. De qualquer forma e só para finalizar digo que o Galvão, que começou comigo ainda na Gazeta continua sendo um grande profissional e merece a altura onde paira. Não sei como aguenta o ritmo de trabalho que executa o que é outro fator que pesa a seu favor em seu currículo.

Flávio Araújo, jornalista e radialista prudentino. Texto publicado originalmente no jornal O Imparcial, de Presidente Prudente. Reproduzido aqui com a permissão do autor.

 

 

flavioaraujo

 

  1. 10/08/2014 às 02:40

    Aliás, a entrevista de 1 hora e 10 minutos dada pelo Flávio ao Milton foi excelente, uma aula grátis. Pena que infelizmente é longa demais para repetirem mesmo num “Terceiro Tempo” de quarta para quinta e levaria dias sendo reprisada de manhã na Bradesco Esportes.

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  2. João Paulo Castilho
    11/08/2014 às 15:36

    Só li verdades. Hoje, parece que o narrador tá na função, porque “caiu de braçada ali”, pois não tem outro, pois o nível caiu muito. Basta ouvir as narrações na TV a cabo. Poucos se salvam.

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