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Programação musical e “blá, blá, blá” ainda são os pilares do rádio

Daniel Daibem/reprodução Facebook

Daniel Daibem/reprodução Facebook

Por Daniel Daibem*

Queridos amigos, há alguns anos saí do rádio. Afinal, foram dezoito anos ininterruptos trabalhando neste veículo fantástico, que me deu reconhecimento e visibilidade até hoje. Saí, mas não abandonei. Foi um respiro, para experimentar um olhar de fora; um ouvido de fora. Como muita gente me pergunta “e o rádio?”, “e o programa?”, “quando é que você vai voltar?”, diariamente, penso e relevo todos esses argumentos.

O que percebi, neste período de ausência, foi que o meio se viciou em um modelo que não funciona mais.

A grade de programação, o abismo entre o comercial e o artístico, a famigerada Agenda Cultural, que é mais uma obrigação protocolar para justificar a cota de anúncio do que, de fato, um momento onde se indica coisas relevantes que estão acontecendo na cidade e, uma coisa que só quem é do meio sabe: o rádio é a única mídia que dá a produção do comercial de graça para o anunciante. Um erro burro, que só acaba levando pro ar, spots feitos com má vontade, por um estagiário/redator, um locutor e um operador, que não estão ganhando nada a mais para se empenhar naquilo. Imagine se a Globo tivesse que produzir os “filmes” de Volkswagen ou Boticário de graça, ou com o valor “embutido” no preço de veiculação.

Mas, vou me ater ao artístico, que é o que domino, de alguma forma:

    • Programação Musical: hoje, com um pen drive, o cidadão espeta esse dispositivo no carro e tem à disposição, pelo menos, três mil músicas de seu agrado. Flashbacks (que são aquelas de seu afeto, que marcaram momentos de sua vida), albuns inteiros, raridades, lugares comuns e, inclusive, os lançamentos que, muitas vezes chegam às mãos dos fãs antes mesmo do rádio tocar. Aí, os diretores e programadores, por conta de um modelo que funcionou por muitos anos, ficam escravos de um programa de computador que tenta mapear o acervo e distribuí-lo numa grade de 24 horas, com presets do tipo: “não pode ter duas nacionais na sequência”, “para abrir o horário tem que ser sempre um lançamento seguido de um midback (sabe o que é isso?) e dois flashbacks, com uma nacional intercalada no meio”…e por aí vai.
      A cabeça do expectador não funciona mais assim. É só entrar no Itunes do seu filho e dar uma fuçada nas playlists.
      Ou seja, o último lugar aonde o consumidor médio vai esperar para ouvir a sua lista de músicas prediletas, é o rádio.
      Isso não quer dizer que o rádio não pode mais buscar sua audiência através da música. Mas, as formas de surpreender o ouvinte, são outras, há muito tempo.
    • Blá Blá Blá: rádio sempre foi, e sempre será a transmissão de eventos por ondas de radiodifusão. Começaram com os saraus e serenatas, nas residências aonde havia um piano. Os músicos se reuniam e transmitiam esses encontros por ondas curtas. Tenho uma foto do meu avô fazendo isso, com um microfone que parecia um apiário, no Mato Grosso do Sul, na década de 1930. O que mais? Leitura de cartas de amor, notícias, transmissão de discursos e eventos, jogos, acidentes, guerras, fatos, fofocas, receitas de bolo. Resumindo, o potencial do rádio sempre foi: a Companhia.
      Mas não aquela companhia da locutora de rádio-de-sala-de-espera-de-consultório, tipo, “Olá, aqui é Rejane Toledo fazendo companhia prá você até às oito da noite aqui no seu noventa e oito ponto sete. Uma ótima tarde e a gente começa com…” Não, não, não…não.
      A companhia é alguém que te represente ou que te oriente.
      É o Boechat, o Zé Simão, o Eli Correa, o Roberto Maia, o não-sei-o-que-Gasparretto, o Silvio Luiz, o PVC, o imitador, a vedete, o músico, o celebrity e, mesmo você não concorde, os pastores evangélicos. Aliás, porque será que hoje é mais rentável para o detentor de uma concessão de rádio arrendar a mesma para uma igreja do que tentar repetir este modelo criticado acima?
      O pastor tem o dom da palavra e é por isso que soa eficiente quando usa esta ferramenta. Isto não é opinião; é constatação.
      A companhia é a figura do orientador, seja ele de qualquer área. É o comentarista político, é o observador de tendências, é o Dráuzio Varela lembrando que ainda é importante usar a camisinha, é o cara que simplifica o Jazz prá quem nunca teve saco de ouvir esse troço (esse sou eu, né; só mencionei prá puxar meu saco, mesmo).
      Agora, isso dá trabalho, né. Já pensou… manter uma emissora, 24 horas por dia, com gente carismática falando ao pé do ouvido? No momento, só mesmo as evangélicas estão cumprindo esse papel. Sério.

Dito isso, fico pensando, observando e aguardando o primeiro grupo de comunicação que vai ter coragem de romper esse padrão. Porque padrão é bom, quando funciona.

Parece que não está funcionando.

*Daniel Daibem é radialista e tem passagens por emissoras como 89 FM, Brasil 2000 FM e Eldorado FM. Atualmente se dedica à música com seu Daniel Daibem Grupo.

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Categorias:Análise Tags:
  1. nagib
    12/02/2015 às 18:41

    é isso, nada a acrescentar. acontece q muitos dos donos não são do “ramo”, tendo entrado no setor pelos mais diversos objetivos, qse sempre o de levar alguma vantagem, nunca o de fazer o bom rádio.

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  2. 13/02/2015 às 09:01

    Excelente texto, que mostra exatamente a realidade do rádio atual… parabéns Daniel, você é fera …e faz falta!!!

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