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Pagando pode, não pagando, não, por Flávio Araújo

Ainda sobre a questão envolvendo os problemas entre CBF e repórteres de rádio, trazemos aqui um artigo escrito por Flávio Araújo e publicado no site Ribeirão Preto On Line. Narrador esportivo, com serviços prestados a emissoras como Bandeirantes e Gazeta, Flavio  viveu os áureos tempos em que o veículo reinava quase soberano no que dizia respeito à cobertura dos jogos de futebol.  No texto, ele relata fatos que viu de perto ou vivenciou. E mesmo naqueles tempos, os repórteres de rádio vivam dificuldades para trabalhar. Texto reproduzido com permissão do autor (Rodney Brocanelli).

 

Meu estimado amigo Nagib Pachá Junior é um atento observador das coisas do futebol e de suas ligações com as transmissões radiofônicas.

Devo a ele o envio de interessante matéria assinada pelo jornalista e estudante de direito Bruno Henrique de Moura, publicada no Observatório da Imprensa, do grande Alberto Dines, um mestre de todos nós e tomo a liberdade de reproduzir parte da mesma que julgo de bastante interesse do público em geral.

O PROTOCOLO DA CBF PARA A IMPRENSA

“A televisão revolucionou a forma de se ver e fazer futebol na imprensa.

Ela possuía a imagem.

Contudo, a áurea da transmissão no rádio nunca foi superada pelas cores e replays de uma voz marcante e sedutora que lhe faz fechar os olhos e criar através dos neurônios aquele fantástico ambiente e a cena que move a imaginação da jogada, do passe, do escanteio e do momento de glória de quem joga futebol, de quem transmite futebol e de quem ouve futebol: o gol.

Mas, a televisão trouxe algo que o rádio não consegue superar.

Os milionários valores por direitos de transmissão e as cotas publicitárias galopantes.

Eis o grande problema dessa relação: as finanças.

O fabuloso mundo do futebol encantou-se pelos luxos e valores astronômicos que hoje são pagos para um atleta, para um diretor, para um técnico.

O jogador do sub-15 recebe mais dinheiro por mês que este humilde jornalista esportivo ganha num ano.

O futebol encareceu, 200 milhões de direitos de transmissão por uma temporada, por 12 meses, para um clube.

Quem paga leva para jantar, dá flores, champanhes, bombons, se sente no direito de pedir algumas regalias da sua companheira de mesa, que acaba por desejo e necessidade, por perder as regalias do amante.

É penoso, doloroso e difícil de aceitar, acaba por acatar.

No dia 20/05/2016 a CBF publicou no seu site oficial o protocolo da imprensa e acesso ao gramado das séries A e B do campeonato brasileiro.

Entre as diversas regras colocadas algumas dizem respeito diretamente ao trabalho dos antigos “maridos” do futebol, os jornalistas de rádio.

As famosas entrevistas à beira do gramado no pré-jogo ou no intervalo não poderão ser mais feitas pelos repórteres de rádio.

Apenas a televisão, detentora dos direitos terá tal direito.

No único momento permitido para as emissoras de rádio, o final da partida, os repórteres, como mostra o artigo 49 combinado com inciso II do artigo 47 devem aguardar na aconchegante zona mista com grades, expediente adotado em muitos estádios também durante o jogo, em que os repórteres ficam “enjaulados” .

Agora ficarão enjaulados gritando pela benevolência do atleta para que ele vá se dirigir até os repórteres, repito, enjaulados, e lá conversar com os mesmos.”

ONDE TUDO NASCEU

Esta a parte do artigo do jornalista Bruno Henrique de Moura e publicado no Observatório da Imprensa que julguei do interesse em aqui repetir.

Por ter algo a acrescentar ao excelente material que me foi enviado pelo amigo Nagib lá do Rio de Janeiro é que continuarei a acrescentar dados de meu conhecimento e de minha longa vivência no rádio esportivo.

Claramente quando comecei a transmitir partidas de futebol ainda não havia o repórter de campo e a primeira vez que tomamos a iniciativa um subdelegado de polícia interrompeu a transmissão e o próprio jogo alegando a impossibilidade da reportagem entrar em campo.

Posteriormente as emissoras sentiram a dificuldade de comprar a aparelhagem que quando foi lançada custava uma fortuna.

Os primeiros repórteres trabalhavam com microfones sustentados por longos fios e o trabalho ia até onde o fio alcançava.

Também um outro problema: como os repórteres eram poucos e um pequeno número de emissoras transmitia futebol ficavam marcados pelos jogadores que só davam entrevistas para aqueles que sabidamente não os criticavam.

Quando surgiu a TV houve a competição entre o microfone e a câmera e os atletas se dirigiam sempre para aqueles que divulgassem sua imagem e não apenas a sua voz.

Os repórteres de rádio ficaram mais do que nunca a ver navios na busca de jogadores para entrevistar.

Essa questão que levantei acima, a do atleta que só falava para aqueles que lhe levantassem a bola é muito séria e persiste até os dias atuais.

Hoje foi um pouco suavizada pela presença de ex-atletas aos microfones como comentaristas e fazendo uma analogia os jogadores sabem pelas informações quase sempre de familiares daqueles que fazem críticas pesadas (e quase sempre verdadeiras) e dos que somente ocupam microfones pelo prestígio adquirido no gramado e ali estão para manter-se no meio e faturar algo mais.

Repórteres verdadeiros, porém, daqueles que vão ao âmago da ferida e perguntam aquilo que o ouvinte gostaria de perguntar se segurasse um microfone não existem mais.

O sprit de corps entre os jogadores funciona como um relógio e fez uma pergunta pesada a um é como se a fizesse a todo o time.

A JANELA DAS REPORTAGENS

Quem batizou a janele da reportagem foi o comentarista Milton Camargo, chefe de esportes da Rádio Tupi de São Paulo.

Tudo começou na Copa do Mundo de 1970 quando havia um grande número de profissionais da imprensa de rádio, jornais, revistas e televisão para entrevistar um pequeno número de jogadores do elenco do Brasil.

Naquela época, lembram-se os senhores, a seleção era toda comandada por militares, vivíamos o período que dominou o país de 1964 a 1985 e até o comandante da delegação era um militar.

Evidente que os repórteres tiveram que se enquadrar e os jogadores iam passando um a um e aquele que se dispunha a falar ou encontrava um conhecido que o admirava e o elogiava parava para algumas poucas palavras.

O problema dos direitos de transmissão também não é coisa nova.

Houve um período em que Pedro Luis fez uma campanha em São Paulo para que as emissoras de rádio também pagassem direitos.

Isso acontece oficialmente nas Copas do Mundo, em jogos oficiais da FIFA e em certos esportes como o boxe há muitos anos.

Transmiti com exclusividade alguns dos maiores combates de boxe porque minha emissora foi a única a comprar os direitos de transmissão.

A campanha do Pedro não foi em frente com o recuo de algumas emissoras, houve uma tentativa posterior de que os responsáveis por transmissões esportivas pelo menos pagassem seus ingressos o que também não progrediu.

Mas, apenas no Brasil.

Na Europa as transmissões esportivas são muito mais reduzidas até porque o rádio europeu até recentemente era todo estatal e pequeno o número de emissoras.

Quando no período áureo do futebol brasileiro e a seleção fazia constantes excursões era comum notarmos o público a nossa frente de costas para o campo admirando e se divertindo com a forma de trabalhar dos locutores brasileiros, para eles uma novidade.

O artigo do jornalista carioca é bastante oportuno e uma das razões que impediram até hoje que as emissoras pagassem direitos para transmitir foi a ameaça destas de cortarem os programas esportivos, sempre uma publicidade marcante para a presença de público nos diversos jogos.

A cada dia aumenta a concorrência nesse sentido com a programação televisiva fechada e sabemos que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco.

Num certo sentido o rádio é popular como o próprio futebol e a tevê comprando direitos para transmiti-lo abre caminho para que todas as rádios se integrem gratuitamente por força de lei dentro do mesmo pacote.

Além do mais, com as emissoras que hoje existem exclusivamente na Internet o leque abriu-se de tal forma que chegaremos a um ponto onde, no caminho em que vai, dia haverá em que o número maior de relatores, comentaristas, repórteres superará o de torcedores que pagaram ingresso.

Uma solução intermediária: tem muita rádio transmitindo futebol sim, mas a maioria o faz vendo o mesmo de uma tela de televisão.

As poucas que vão realmente aos estádios tem que se conformar e “abrigar” seus profissionais enjaulados como descreve o artigo aqui exposto.

flavioaraujo

  1. 23/06/2016 às 20:11

    Até hoje ainda gosto muito de ouvir um jogo pelo radio pois a emoção é sempre maior ,Recordo de quando ainda não tinha televisão e em minha casa colocava nos o radio em cima de uma cadeira no fundo do quintal e ficava eu meu tio e meu primo ouvindo aquelas belas transmissões dos locutores fenomenais de radio que só eles conseguiam passar para a gente tudo que ocorria dentro de campo .Bons tempos .

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