Watergate do rádio gaúcho termina com muitas perguntas e pouca esperança de respostas

Por Rodney Brocanelli

Na semana que passou, o Grupo RBS anunciou o desligamento de Arthur Gubert e Luciano Costa. Os profissionais estavam afastados de suas funções no grupo desde a divulgação de uma gravação digital, com cerca de 15 minutos, em que a dupla conversa a respeito de colegas e processos internos da empresa (saiba mais aqui). O tom é de descontentamento, acusações e (algumas) sugestões de melhoria.

A comparação com o célebre caso Watergate não é  descabida, uma vez que seu desenlace se deu depois do surgimento de gravações que praticamente incriminaram o então presidente Richard Nixon na invasão do escritório do Partido Democrata.

O desfecho anunciado pelo Grupo RBS não encerra o caso de uma vez. Muitas perguntas ficaram no ar.  Eis algumas delas, a seguir.

1) Em qual ambiente foi gravado esse áudio? Dentro ou fora do ambiente corporativo?

2) Caso a gravação tenha ocorrido em ambiente corporativo, quem foi o responsável por ela? E mais: caso a resposta seja afirmativa, quem se sentira seguro dentro dele para expor suas angústias e visões a respeito do ambiente de trabalho e respectivos processos?

3) A gravação foi feita por algumas das pessoas envolvidas na conversa? Em caso afirmativo, como se deu o vazamento? Foi de forma proposital? Aconteceu por engano? Algum hacker atuou para que a conversa se tornasse pública?

Não existe uma esperança imediata de que apareçam respostas. Mesmo assim, os questionamentos merecem ficar registrados.

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A era dos podcasts brasileiros

Por Rodney Brocanelli

Bem que o Radioamantes gostaria de acompanhar mais de perto essa “era dos podcasts” brasileiros, indicando iniciativas legais A falta de tempo e a cobertura do noticiário de rádio (dial) impedem uma dedicação maior. Para quem quiser entender um pouco mais sobre este blog, recomendo que leiam este texto aqui, de 2013.

No entanto, dá para deixar aqui pelo menos duas indicações e falar um pouco mais neste fenômeno. Um deles é o Hoje Sim tocado por Cleber Machado e hospedado no Globo Esporte. Na edição de número 19, ele conseguiu reunir dois nomes de peso: Muricy Ramalho, ex-técnico de futebol e hoje comentarista no Sportv, e Claudio Zaidan, radialista e comentarista da Rádio Bandeirantes.

Além da qualidade dos convidados, o podcast do narrador da Rede Globo merece elogios pela pauta: “A solidão e a saudade no futebol”. Como técnico, Muricy pode falar com propriedade da solidão tanto do cargo de técnico, como do fato de não levar seus familiares quando ele trabalhou fora do estado de São Paulo.

Muricy conta que quando era técnico do Internacional, em Porto Alegre, morando sozinho na capital dos gaúchos, ele sempre procurou ouvir rádio. Buscando algo para ouvir, ele acabou encontrando um excelente companheiro: Claudio Zaidan. Na época, Zaidan, comandava com maestria o “Bandeirantes, A Caminho do Sol”, falando sobre os mais diversos assuntos, política internacional, política nacional, futebol, entre outros. O então treinador gostou do que ouviu e se tornou ouvinte assíduo.

No bate-papo, Muricy relembrou essa história com Zaidan presente. Além disso, eles falaram de outros temas, entre eles o futebol. Cleber Machado teve algum trabalho para manter o podcast dentro da pauta, o que é normal quando se reúne duas pessoas com muito a dizer. Entretanto, o resultado ficou muito bom. O único reparo é quanto ao título. Bem que ele poderia ser “O rádio, a solidão e a saudade no futebol”. Para ouvir, clique aqui.

Outra dica de podcast é Meio Rádio. Este é mais curto e eminentemente humorístico, com ênfase no nonsense.  Na equipe, nomes conhecidos do radiojornalismo paulistano: Caetano Cury, Hugo Vecchiato  e Leandro Gouveia.  A edição número 7 tem uma participação especial de Marcelo Duarte, como você nunca ouviu antes. Aliás, o elenco convidado é de causar inveja a qualquer redação de rádio.

Quem costuma acompanhar as emissoras jornalísticas de São Paulo, tanto no AM, como no FM, vai sacar algumas das referências neste episódio, especialmente com relação à falhas técnicas em externas.  Em uma das edições anteriores, outro destaque é uma entrevista história do repórter Matuzalém Júnior com um certo chanceler da Alemanha.

Um dado curioso a respeito do Meio Rádio é que ele foi pensando para ser um programa de rádio, no entanto, a ideia nunca seguiu adiante. Agora, ela ganha vida por meio da podosfera. Ouça todas as edições aqui.

Modinha?

Algumas impressões sobre essa onda de podcasts. Essa “explosão”, de certa forma, me lembra muito a “explosão” dos blogs, ocorrida no começo deste século. Alguém aí lembra? No começo deste século, praticamente todo mundo passou a ter um blog para escrever impressões e falar sobre interesses afins. A onda do podcast guarda essa semelhança com o “falar sobre interesses afins”.

Muita gente passou a se profissionalizar, com a adesão de muitos leitores e consequente aumento de visitação e comentários. Inclusive, surgiu aí uma casta de “top bloggers”.

Espera-se que essa questão dos podcasts não passe apenas de um modismo, como foi a era dos blogs. Muitos blogueiros resolveram deixar seus blogs pra lá, por diversas razões (embora seja criado apenas em 2010, e uma dissidência de outro blog  – bleargh! – o Radioamantes é um, digamos, filho daquela era, tornado-se assim um sobrevivente). Tomara que isso não aconteça com os podcasts.

Enquanto essa febre dos podcasts durar, acho que pelo menos deve existir algum cuidado com a estética. Qualidade de som é importante, sim. Quanto ao formato, acho que pode ser livre, mas creio que possa existir variedade…

Sobre variedade, tem que existir mesas redondas, mas creio que há espaço para podcasts semelhantes a programas de rádio, com pequenas reportagens, entrevistas, sonoras, povo fala, músicas, por que não?

Enfim, a era dos podcasts é mais que bem-vinda, mas espero que não seja apenas uma modinha (isso para usar um termo da – há há – moda).

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Narrador desabafa contra o fato de repórteres não poderem fazer entrevistas durante os intervalos dos jogos

Por Rodney Brocanelli

No último sábado, durante a transmissão de São Paulo x Santos pela Super Rádio, o narrador Helio Claudino colocou o dedo na ferida. Logo após o apito final da primeira etapa, jogadores dos dois times correram para os vestiários sem falar com os profissionais de rádio. Restou aos repórteres Lucas Basílio e Jota Sampaio informar os respectivos jogadores que estavam à disposição dos técnicos nos bancos de reservas. Claudino então perguntou: “ninguém fala nesse intervalo? Não tem ninguém para falar aí?

Claudino seguiu questionando: “Jogador eu sei que não fala, mas tem para caramba aí, não tem não?” O repórter Jota Sampaio respondeu: “É proibido, Helio. Ninguém pode falar. Nem comissão técnica, nem árbitro, ninguém”. Helio seguiu em frente, fazendo uma réplica: “Não tem presidente, não tem roupeiro?”. Jota fez a tréplica: “A gente não pode entrevistar nem o roupeiro”.

Depois do diálogo, Helio Claudino desabafou: “Eu não acredito. Eu vou perguntar na federação. Não é possível aos repórteres de rádio só darem relação de jogadores e todo mundo correr para o vestiário, tomar café…tem gente para se falar, tem alguém aí para falar. Hoje, por exemplo, do São Paulo , deve ter tanto são-paulino famoso aí para assistir o jogo, tá lá na tribuna e desce para tomar café. Precisamos acabar com isso aí. A Aceesp precisa entrar nessa parada. Ou ela, ou sei lá quem, para poder colocar ordem na casa. Todo mundo manda, menos a nossa associação. Ou então, para que tem associação?”.

Esse diálogo e o posterior desabafo, que é possível ouvir no player abaixo, é o registro da situação que os repórteres de rádio vivem há pouco mais de dois anos, especialmente em competições geridas pela CBF. Os profissionais não podem entrevistas jogadores na saída para o vestiário, no intervalo de jogo. Somente após o apito final, eles podem tentar fazer entrevistas, sem poder entrar em campo, sempre esperando os jogadores nos túneis com microfone em punho. Alguns atletas param para falar. Outros preferem seguir direto.

Com tantas limitações, é de se admirar que nenhum “jestor jênio” ainda tenha se atentado para o fato de que o investimento de se colocar o repórter no campo de jogo não traz um retorno muito grande, artisticamente falando. Quem vai para lá, apenas detalha os lances de jogo, dá o banco de reservas no intervalo, e com um pouco de sorte, consegue algum depoimento de jogador.

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Cabeças de rede poderiam ceder seus astros da narração para afiliadas

Por Rodney Brocanelli

No último sábado, José Carlos Araújo narrou Ceará x Fortaleza, clássico do Ceara, pela Rádio Clube, de Fortaleza, emissora dos Diários Associados (conglomerado a qual pertence a Super Rádio Tupi). Esse evento fez parte do aniversário de 85 anos da emissora cearense. Ocorreram algumas falhas técnicas, especialmente de áudio, que não chegaram a comprometer a iniciativa como um todo (saiba mais aqui).

A partir dessa iniciativa, cabe a pergunta: por que outras emissoras, cabeças de rede, não fazem o mesmo de ceder seus astros da narração para suas principais afiliadas? Já pensaram no José Silvério narrando Vila Nova x Atlético-GO, clássico goiano da série B (vai acontecer em 11/10) pela Rádio Bandeirantes, de Goiânia? Ou então, que tal o Nilson Cesar narrando o Fortaleza x Ceará do returno (no mesmo 11/10) pela Jovem Pan News, de Fortaleza?

Sabe-se que a rede da Gaúcha é mais restrita ao Rio Grande do Sul, mas por que não a Rádio Globo, de São Paulo, por uma afinidade entre os grupos RBS e Globo, importar o Pedro Ernesto para fazer um clássico paulistano? Seria enorme o burburinho. Oscar Ulisses e Luiz Penido, por sua vez, poderiam fazer um América x ABC pela Globo Natal. Situações como essas, colocadas em prática, atrairiam grande atenção não apenas do público, mas da mídia (não só a especializada) também. Para pensar.

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Acordo entre Palmeiras e Globo coloca fim à breve “era do rádio”

Por Rodney Brocanelli

Após semanas de tratativas, Palmeiras e Rede Globo chegaram a um acordo para a transmissão dos jogos do clube alviverde em tv aberta e no paw per view. Em nota oficial (leia mais aqui), o clube anunciou que o novo contrato terá validade por seis anos. Esse acerto colocou fim à breve era do rádio proporcionada pelo impasse nas negociações.

Desde o momento em que ambas as partes enfrentaram um impasse que fez demorar uma conclusão para essa negociação, parte considerável do torcedor palmeirense teve de recorrer ao rádio para se informar a respeito de pelo menos dois jogos de seu clube: CSA x Palmeiras e Atlético-MG x Palmeiras. Como o clube paulista havia fechado acordo apenas com a TNT/EI, apenas os jogos contra times que fecharam com o mesmo canal (Athletico, Fortaleza, Inter e Santos) poderiam ser transmitidos pela tv. CSA e Atlético-MG têm contratos com a Globo.

Na partida contra o CSA, pelo menos duas emissoras de rádio aproveitaram essa situação e se mobilizaram para enviar profissionais até Maceió a fim de transmitir a partida: Transamérica e Bandeirantes. No jogo contra o Atlético-MG, o número de emissoras dobrou: 105, Transamérica, Bandeirantes e Globo. Algumas enviaram equipe completa, com narrador, comentarista, repórter e operador de áudio. Outras, apenas não mandaram comentarista.

Essa iniciativa fez com que a transmissão de futebol pelo rádio, ainda que por algum tempo, voltasse a chamar a atenção de uma grande parcela do público e da imprensa. Não faltaram coleguinhas que aproveitaram o momento para reclamar via redes socais da gratuidade das transmissões pelo veículo. Não precisa ser bidú para saber que se um dia o rádio tiver de pagar para transmitir os jogos das competições interclubes do continente, a situação que já não é boa, passaria a ser desesperadora.

Por outro lado, foi interessante ver que outros tipos  veículos de comunicação, como o jornal impresso, que pouco dá espaço ao rádio em seu noticiário, resolveu abrir espaço a ele, como O Estado de S. Paulo, que entrevistou os principais narradores esportivos de São Paulo a fim de abordar esse momento (leia mais aqui).

Depois do acerto entre Palmeiras e Globo, as coisas no rádio esportivo de São Paulo deverão voltar ao normal. O impasse contratual de ambas as partes, infelizmente, não deverá deixar qualquer tipo de legado. O tubão (ou geladão), quando as emissoras fazem seus profissionais transmitirem os jogos assistindo a uma tela de tv (ou de computador, caso o jogo seja transmitido pela DAZN), vai prosseguir.

Se ainda estivesse na ativa, o grande Haroldo Fernandes, narrador histórico da antiga Rádio Tupi, de São Paulo diria a respeito desse estado de coisas: “Quem viajou, viajou. Quem não viajou, não viaja mais”.

 

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Musical FM poderá ser comprada por Ratinho nos 20 anos de virada que marcou sua história

Por Rodney Brocanelli

O site Tudo Rádio publicou nesta terça uma notícia a respeito do interesse de Carlos Massa, o Ratinho da televisão, na Musical FM (105,7Mhz). A frequência onde opera hoje a rádio de orientação evangélica seria o porto seguro para entrada da Massa FM em São Paulo, sonho antigo do empresário. Luiz Benite, diretor executivo da Massa FM, confirmou que Ratinho manifestou interesse na Musical FM, mas sem entrar em outros detalhes (clique aqui para ler a reportagem complete e aproveite para prestigiar o Tudo Rádio).

Talvez Ratinho não saiba, mas ele poderá (repetindo: poderá) fechar negócio para a aquisição da frequência dos 105,7Mhz bem no ano em que se completam 20 anos da virada que marcou a história da Musical FM. Em 1999, ela deixou de ser uma rádio dedicada à MPB e passou a abrigar uma programação 100% evangélica. Na ocasião, essa mudança de perfil causou grande comoção entre os tradicionais ouvintes da emissora. Em 2009, ano que marcou os dez anos da mudança, publiquei um texto em outro blog relembrando esse fato. Clique no link abaixo para ler.

https://radiobaseurgente.blogspot.com/2009/02/ha-10-anos-musical-fm-abandonava-mpb.html

Ratinho

Análise: a sucessão de Ricardo Boechat na Band News FM

Por Rodney Brocanelli

Passado o impacto inicial da morte de Ricardo Boechat, muita gente passou a levantar em grupos de Facebook e Whatsapp nomes de um substituto para ele no principal jornal da Band News FM. Três deles são mais citados (sem ordem de importância): Sidney Resende, William Waack e Roberto Canázio. Antes de mais nada, é bom dizer que a sucessão de Boechat deve necessariamente passar pela resolução dos problemas internos do Grupo Bandeirantes. Como noticiado nos últimos dias, há uma briga entre a famíla Saad pelo controle acionário do grupo. Marcia e Leonor Saad querem tirar João Carlos, o Johnny, do comando da empresa (saiba mais aqui).

Resolvida essa questão, o outro desafio é encontrar um nome que vista tanto a camisa do Grupo como Ricardo Boechat vestiu nesses últimos anos. No UOL, o colunista Ricardo Feltrin conta que em dezembro último, o jornalista renovou contrato com a Bandeirantes por mais um ano, mesmo com o assédio da CNN Brasil. Segundo Feltrin, Boechat não queria deixar o Grupo. Sua saída agravaria ainda mais a situação da empresa, assim como a de seus funcionários (saiba mais aqui). Será que algum grande nome disponível no mercado estaria disposto a isso?

Caso a Band News não queria chamar alguém de fora nesse momento, ela pode optar por duas soluções caseiras. Uma, ortodoxa, é manter a mesma equipe que estava no programa com Boechat: Eduardo Barão, Carla Bigatto e pelo menos mais um nome da redação. A outra, heterodoxa, é chamar Claudio Zaidan para o jornal da manhã. Inteligência ele tem. Quem lembra de seus comentários no Bandeirantes A Caminho do Sol, da Rádio Bandeirantes, pode atestar isso. Além do mais, ao seu modo, ele tem muito carisma e é muito querido e respeitado pelos ouvintes da Bandeirantes.

Ricardo Boechat