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Posts Tagged ‘Flávio Araújo’

Morre Yvette Pinheiro, a “rainha da Fada”, do rádio de Presidente Prudente

Morreu nesta sexta-feira, Yvette Pinheiro, que foi um dos grandes destaques do rádio de Presidente Prudente. Ela começou na Rádio Prudente, de forma precoce, já fazendo participações em rádio-novelas aos 3 anos de idade. No entanto, ninguém melhor para falar sobre ela que seu esposo, Flávio Araújo, narrador esportivo de destaque no Escrete do Rádio, da Bandeirantes, entre os anos 1950 e 1980. O texto abaixo é de sua autoria (Rodney Brocanelli).

YVETTINHA PINHEIRO, A RAINHA DO RÁDIO PRUDENTINO

Eis que para minha surpresa ela apareceu como em um sonho maravilhoso no palco do auditório da Universidade Toledo de Ensino. Era a entrega do troféu Heitor Graça naquele ano de 1982. Surpreso, sentado entre os contemplados pela iniciativa deste jornal, fiquei simplesmente deslumbrado com a extraordinariamente bela figura de Yvette Pinheiro, para mim desde quando a conheci, a Yvetinha. Deslumbrante na declamação de “Gracias a La Vida” de Violeta Parra, seria ela a apresentadora do evento numa escolha de felicidade extraordinária deste jornal e para completar algo que o Céu estava tecendo. Apertei o braço de Cesar Cava, sentado ao meu lado e não resisti: “como Yvetinha está linda” – foi o que falei para concordância do poeta que também receberia o troféu. Não nos víamos, Yvettinha e eu, há decênios. Depois da beleza da cerimônia que ela comandou com a classe de sempre houve um jantar no Hotel Aruá onde trocamos algumas palavras. Eu, separado recentemente da mãe de meus filhos, ela, já há alguns anos divorciado de Celestino Nascimento, seu primeiro marido. A empatia já existia desde que trabalhamos juntos no rádio da cidade. Algo mais passou a existir a partir daquela noite e que se consolidou quando fomos jantar na casa do Adelmo Vanalli. Deodato e Mário também lá estavam. Só pude me casar com Yvetinha em 1987 pois, com as leis de então um casamento de divorciado só se fazia depois de alguns anos. Nossa união nasceu no Alto e sei por informação de quem entende e conhece a doutrina que somos almas gêmeas. Quando a terapeuta me fez essa revelação informou-me que ela estava deixando este plano. Falei que iríamos juntos e a Dra. Ellen me informou que ela iria antes. Mas, nos encontraríamos lá no Alto. Não sei se mereço segui-la pelos caminhos de Deus que ela, tenho certeza, pronto estará percorrendo. Quem sabe a bondade da providência Divina me proporcionará tal felicidade. Mas, olhando o passado e sabendo de tudo o que de bom ela fez sei que estou longe de poder alcançá-la. Lutarei para tanto com essa força que o Senhor está me dando neste momento de minha vida. Yvette Pinheiro, o maior nome feminino que o rádio de Prudente já revelou foi ensinar psicologia no conceituado Colégio Nossa Senhora Aparecida, de freiras franciscanas, em São Paulo e suas alunas se uniram nestes dias para orar por ela. Deixa um imenso acervo de trabalhos psicografados de Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Catulo da Paixão Cearense, Gonzaguinha e Gonzagão e tantos outros. Inclusive o livro editado “O vôo não terminou”, recebido de meu filho Flávio que partiu naquele acidente da TAM em 1996 e onde ele narra, pelas mãos benditas de Yvetinha suas atividades como Espírito Socorrista. O rádio nem sabe o que perdeu. Mas eu sei o que perdi. O Araújo que ela colocou em seu nome foi minha maior conquista. Yvette transformou o outono de minha vida em uma colorida e perfumada primavera. Espere por mim, meu biscuit, que não demorarei a encontrá-la. Deus o permitirá.

 

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Memória: relembre algumas narrações de Flavio Araújo na Rádio Gazeta (SP)

Por Rodney Brocanelli

Flávio Araújo é um nome conhecido dos bons tempos do Escrete do Rádio da Rádio Bandeirantes, entre os anos 1960 e 1980. Ele dividia as narrações dos principais jogos com Fiori Gigliotti e ainda era escalado para a transmissão de outros esportes, como boxe e Fórmula 1. Em 1981,  Flávio encarou um novo desafio em sua carreira, comandando a equipe esportiva da Rádio Gazeta. Lá, ele participou de uma grande cobertura, a da Copa de 1982, na Espanha, em rede com a antiga Rádio Clube Paranaense (hoje B2), de Curitiba. Flávio deixou a Gazeta em 1985. Após uma breve passagem pela Federação Paulista de Futebol, foi para Campinas e lá atuou como comentarista em emissoras como a Central.

Vamos destacar aqui três momentos de Flávio na Gazeta. O primeiro é o gol de Eder na partida entre Brasil x URSS, válida pela Copa da Espanha. O gol da virada da seleção canarinho.

Outro gol daquela mesma Copa, mas desta vez não muito agradável para os brasileiros. Flávio narra o terceiro gol da Itália na partida contra o Brasil, marcado por Paolo Rossi.

Para encerrar, Flávio Araújo narra o gol de Pita, pelo Santos, na primeira partida da decisão do campeonato brasileiro de 1983.

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Radioamantes no Ar fala sobre a crise da Rádio Tupi (RJ)

Nesta semana, o Radioamantes no Ar falou sobre a crise da Rádio Tupi (RJ) que parece não ter mais fim. Somente na semana que passou, vários profissionais foram demitidos. A situação lembra muito o que aconteceu com as emissoras de tv dos Diários Associados no começo da década de 1980. Outros assuntos: os jogos olímpicos pelo rádio e o registro dos aniversários de nomes históricos do rádio esportivo: Osmar Santos e Flávio Araújo. O Radioamantes no Ar é veiculado todas as sextas, sempre a partir das 09h pela web rádio Showtime (http://showtimeradio.com.br). Com Rodney Brocanelli, João Alckmin e Flávio Ashcar.

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Flávio Araújo, 82

29/07/2016 1 comentário

Por Rodney Brocanelli

E a festa não para. Ontem comemoramos o aniversário de Osmar Santos. Hoje é a vez de darmos os parabéns para Flávio Araújo, que foi narrador esportivo, defendendo por muitos anos o microfone da Rádio Bandeirantes, de São Paulo. Além disso, teve passagens pela Rádio Gazeta e Rádio Central, de Campinas (aqui como comentarista).Ele ainda está na ativa, com uma coluna no site Ribeirão Preto On Line e um comentário diário na Rádio Cultura, de Poços de Caldas (MG).

Flávio Araújo seguiu a escola de Pedro Luiz, fazendo uma narração descritiva do que acontecia em campo, nas quadras, no ringue ou mesmo nos autódromos. No entanto, ele se permitia usar alguns bordões, como o “colocou a deusa branca para fazer chuá”, logo após um lance de gol, ou o “o 10 está brilhando na camisa dele”.

Seu período na ativa como narrador esportivo coincidiu com o auge de pelo menos quatro grandes esportistas da história do Brasil: Adhemar Ferreira da Silva, Éder Jofre, Pelé e Émerson Fittipaldi. Flávio usou sua voz para propagar os feitos deste quarteto de ouro aos quatro cantos deste país.

Vamos relembrar aqui algumas de suas narrações. Flávio Araúo narra uma luta de Éder Jofre contra Danny Kid, no ginásio do Ibirapuera. O ano é 1959.

Em 1982, a Gazeta, então comandada por Flávio Araújo, se associou com a antiga Rádio Clube Paranaense, liderada por Lombardi Jr, para a cobertura da Copa da Espanha. Essa dobradinha fez muito sucesso na época.

Em 30 de Março de 1980, Nelson Piquet conquistou sua primeira vitória na Fórmula 1. Narração de Flavio Araujo pela Bandeirantes.

Flávio foi um dos privilégiados que teve a oportunidade de narrar o milésimo gol de Pelé

Uma edição de seu “O Positivo e o Negativo”, na Rádio Cultura, de Poços de Caldas.

Flávio Araújo foi um dos entrevistados do Radioamantes no Ar, sempre apresentado pela web rádio Show Time.

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Pagando pode, não pagando, não, por Flávio Araújo

23/06/2016 1 comentário

Ainda sobre a questão envolvendo os problemas entre CBF e repórteres de rádio, trazemos aqui um artigo escrito por Flávio Araújo e publicado no site Ribeirão Preto On Line. Narrador esportivo, com serviços prestados a emissoras como Bandeirantes e Gazeta, Flavio  viveu os áureos tempos em que o veículo reinava quase soberano no que dizia respeito à cobertura dos jogos de futebol.  No texto, ele relata fatos que viu de perto ou vivenciou. E mesmo naqueles tempos, os repórteres de rádio vivam dificuldades para trabalhar. Texto reproduzido com permissão do autor (Rodney Brocanelli).

 

Meu estimado amigo Nagib Pachá Junior é um atento observador das coisas do futebol e de suas ligações com as transmissões radiofônicas.

Devo a ele o envio de interessante matéria assinada pelo jornalista e estudante de direito Bruno Henrique de Moura, publicada no Observatório da Imprensa, do grande Alberto Dines, um mestre de todos nós e tomo a liberdade de reproduzir parte da mesma que julgo de bastante interesse do público em geral.

O PROTOCOLO DA CBF PARA A IMPRENSA

“A televisão revolucionou a forma de se ver e fazer futebol na imprensa.

Ela possuía a imagem.

Contudo, a áurea da transmissão no rádio nunca foi superada pelas cores e replays de uma voz marcante e sedutora que lhe faz fechar os olhos e criar através dos neurônios aquele fantástico ambiente e a cena que move a imaginação da jogada, do passe, do escanteio e do momento de glória de quem joga futebol, de quem transmite futebol e de quem ouve futebol: o gol.

Mas, a televisão trouxe algo que o rádio não consegue superar.

Os milionários valores por direitos de transmissão e as cotas publicitárias galopantes.

Eis o grande problema dessa relação: as finanças.

O fabuloso mundo do futebol encantou-se pelos luxos e valores astronômicos que hoje são pagos para um atleta, para um diretor, para um técnico.

O jogador do sub-15 recebe mais dinheiro por mês que este humilde jornalista esportivo ganha num ano.

O futebol encareceu, 200 milhões de direitos de transmissão por uma temporada, por 12 meses, para um clube.

Quem paga leva para jantar, dá flores, champanhes, bombons, se sente no direito de pedir algumas regalias da sua companheira de mesa, que acaba por desejo e necessidade, por perder as regalias do amante.

É penoso, doloroso e difícil de aceitar, acaba por acatar.

No dia 20/05/2016 a CBF publicou no seu site oficial o protocolo da imprensa e acesso ao gramado das séries A e B do campeonato brasileiro.

Entre as diversas regras colocadas algumas dizem respeito diretamente ao trabalho dos antigos “maridos” do futebol, os jornalistas de rádio.

As famosas entrevistas à beira do gramado no pré-jogo ou no intervalo não poderão ser mais feitas pelos repórteres de rádio.

Apenas a televisão, detentora dos direitos terá tal direito.

No único momento permitido para as emissoras de rádio, o final da partida, os repórteres, como mostra o artigo 49 combinado com inciso II do artigo 47 devem aguardar na aconchegante zona mista com grades, expediente adotado em muitos estádios também durante o jogo, em que os repórteres ficam “enjaulados” .

Agora ficarão enjaulados gritando pela benevolência do atleta para que ele vá se dirigir até os repórteres, repito, enjaulados, e lá conversar com os mesmos.”

ONDE TUDO NASCEU

Esta a parte do artigo do jornalista Bruno Henrique de Moura e publicado no Observatório da Imprensa que julguei do interesse em aqui repetir.

Por ter algo a acrescentar ao excelente material que me foi enviado pelo amigo Nagib lá do Rio de Janeiro é que continuarei a acrescentar dados de meu conhecimento e de minha longa vivência no rádio esportivo.

Claramente quando comecei a transmitir partidas de futebol ainda não havia o repórter de campo e a primeira vez que tomamos a iniciativa um subdelegado de polícia interrompeu a transmissão e o próprio jogo alegando a impossibilidade da reportagem entrar em campo.

Posteriormente as emissoras sentiram a dificuldade de comprar a aparelhagem que quando foi lançada custava uma fortuna.

Os primeiros repórteres trabalhavam com microfones sustentados por longos fios e o trabalho ia até onde o fio alcançava.

Também um outro problema: como os repórteres eram poucos e um pequeno número de emissoras transmitia futebol ficavam marcados pelos jogadores que só davam entrevistas para aqueles que sabidamente não os criticavam.

Quando surgiu a TV houve a competição entre o microfone e a câmera e os atletas se dirigiam sempre para aqueles que divulgassem sua imagem e não apenas a sua voz.

Os repórteres de rádio ficaram mais do que nunca a ver navios na busca de jogadores para entrevistar.

Essa questão que levantei acima, a do atleta que só falava para aqueles que lhe levantassem a bola é muito séria e persiste até os dias atuais.

Hoje foi um pouco suavizada pela presença de ex-atletas aos microfones como comentaristas e fazendo uma analogia os jogadores sabem pelas informações quase sempre de familiares daqueles que fazem críticas pesadas (e quase sempre verdadeiras) e dos que somente ocupam microfones pelo prestígio adquirido no gramado e ali estão para manter-se no meio e faturar algo mais.

Repórteres verdadeiros, porém, daqueles que vão ao âmago da ferida e perguntam aquilo que o ouvinte gostaria de perguntar se segurasse um microfone não existem mais.

O sprit de corps entre os jogadores funciona como um relógio e fez uma pergunta pesada a um é como se a fizesse a todo o time.

A JANELA DAS REPORTAGENS

Quem batizou a janele da reportagem foi o comentarista Milton Camargo, chefe de esportes da Rádio Tupi de São Paulo.

Tudo começou na Copa do Mundo de 1970 quando havia um grande número de profissionais da imprensa de rádio, jornais, revistas e televisão para entrevistar um pequeno número de jogadores do elenco do Brasil.

Naquela época, lembram-se os senhores, a seleção era toda comandada por militares, vivíamos o período que dominou o país de 1964 a 1985 e até o comandante da delegação era um militar.

Evidente que os repórteres tiveram que se enquadrar e os jogadores iam passando um a um e aquele que se dispunha a falar ou encontrava um conhecido que o admirava e o elogiava parava para algumas poucas palavras.

O problema dos direitos de transmissão também não é coisa nova.

Houve um período em que Pedro Luis fez uma campanha em São Paulo para que as emissoras de rádio também pagassem direitos.

Isso acontece oficialmente nas Copas do Mundo, em jogos oficiais da FIFA e em certos esportes como o boxe há muitos anos.

Transmiti com exclusividade alguns dos maiores combates de boxe porque minha emissora foi a única a comprar os direitos de transmissão.

A campanha do Pedro não foi em frente com o recuo de algumas emissoras, houve uma tentativa posterior de que os responsáveis por transmissões esportivas pelo menos pagassem seus ingressos o que também não progrediu.

Mas, apenas no Brasil.

Na Europa as transmissões esportivas são muito mais reduzidas até porque o rádio europeu até recentemente era todo estatal e pequeno o número de emissoras.

Quando no período áureo do futebol brasileiro e a seleção fazia constantes excursões era comum notarmos o público a nossa frente de costas para o campo admirando e se divertindo com a forma de trabalhar dos locutores brasileiros, para eles uma novidade.

O artigo do jornalista carioca é bastante oportuno e uma das razões que impediram até hoje que as emissoras pagassem direitos para transmitir foi a ameaça destas de cortarem os programas esportivos, sempre uma publicidade marcante para a presença de público nos diversos jogos.

A cada dia aumenta a concorrência nesse sentido com a programação televisiva fechada e sabemos que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco.

Num certo sentido o rádio é popular como o próprio futebol e a tevê comprando direitos para transmiti-lo abre caminho para que todas as rádios se integrem gratuitamente por força de lei dentro do mesmo pacote.

Além do mais, com as emissoras que hoje existem exclusivamente na Internet o leque abriu-se de tal forma que chegaremos a um ponto onde, no caminho em que vai, dia haverá em que o número maior de relatores, comentaristas, repórteres superará o de torcedores que pagaram ingresso.

Uma solução intermediária: tem muita rádio transmitindo futebol sim, mas a maioria o faz vendo o mesmo de uma tela de televisão.

As poucas que vão realmente aos estádios tem que se conformar e “abrigar” seus profissionais enjaulados como descreve o artigo aqui exposto.

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Rádio Trianon relembra Fiori Gigliotti

Por Rodney Brocanelli

No último domingo, o programa Arquibancada Trianon, da Rádio Trianon (SP) prestou uma importante homenagem à memória do narrador Fiori Gigliotti. A atração comandada por Don Roberto Costa, contou com a participação no estúdio de Dalmo Pessoa, jornalista que trabalhou por muitos anos com Fiori, e Marcelo Gigliotti, filho do radialista. Além disso, grandes nomes do rádio esportivo como Milton Neves, José Silvério, Flavio Araújo, Flavio Prado, entre outros, gravaram depoimentos a respeito do histórico locutor esportivo. Na última quarta-feira, dia 8 de junho, fez dez anos que  Fiori morreu. A iniciativa da Trianon fez com que a efeméride não passasse em branco no rádio. Ouça abaixo.

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O Rádio e os primeiros gritos de gol, por Flávio Araújo

publicado no site Ribeirão Preto on Line

O rádio, o grande invento que marcou o início do século passado foi durante muitos anos um órgão estatal e que só transmitia aquilo que o governo desejava.

Isso acontecia nos países onde imperavam governos ditatoriais, mas também a Grã-Bretanha, Inglaterra à frente, teve na BBC sua porta-voz exclusiva.

Esse tipo de rádio subsistia sem publicidade que o sustentasse e no caso da Inglaterra o pagamento da taxa por parte dos possuidores de aparelhos era paga sem que ninguém o contestasse até recentemente.

No Brasil o rádio já nasceu independente com a fundação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro em 1923, mas também sem publicidade e com pagamento de taxa por aparelho.

Não durou muito esse estado de coisas e a publicidade passou rapidamente a ser aceita para que houvesse realmente progresso no broadcast brasileiro.

Também nos Estados Unidos da América do Norte o rádio nasceu livre e com publicidade ilimitada.

Existem ainda resquícios do rádio brasileiro no tempo da ditadura Vargas e o programa A Voz do Brasil, de transmissão obrigatória até hoje por todas as emissoras do país é a lembrança dos tempos em que a Rádio Nacional, subsidiada, tinha o maior elenco de artistas e era a mais ouvida do país.

Como os sucessivos governos, mesmo nos períodos democráticos, sempre tiveram uma queda para controlar a mídia, como o atual, a Voz do Brasil, muito combatido por seu anacronismo e pela concorrência superior que as emissoras fazem em seus programas informativos continua resistindo e mantendo-se no ar.

Nos países onde as ditaduras cravaram suas unhas com maior profundidade a presença do rádio sempre influenciou o futebol e caminhou ao lado deste fazendo sempre a vontade e seguindo a orientação fundamentalista dos donos do poder.

O HOMEM DE MUSSOLINI NO MICROFONE

Benito Mussolini, o foi o ditador da Itália que mais se aproveitou do chamado rádio oficial para promover as vitórias italianas de 1934/38 nos segundo e terceiro mundiais de futebol.

Tinha uma voz oficial para transmitir os cotejos da “azurra” e é sobre ele que escrevo.

No ano de 1956 fiz a minha primeira transmissão do Maracanã, cotejo amistoso entre Brasil e Itália, vitória brasileira por 2 a 0 e a primeira vez que um microfone de minha cidade natal, onde iniciei minhas atividades, era levado ao grande estádio.

Longe de mim imaginar que alguns poucos anos depois estaria em Milão transmitindo o cotejo onde o Brasil pagaria com a presença de sua seleção a visita da italiana.

Entre as emoções que o cotejo de 1956 me proporcionou estava a oportunidade de conhecer Nicoló Carósio, o locutor oficial de Mussolini e que transmitira os dois mundiais ganhos por seu país em 1934 na Itália e em 1938 na França.

Democrata e adepto de regimes onde o povo era livre não tinha nenhuma simpatia com um locutor notadamente imbricado com os princípios que o Ducce italiano defendeu.

Minha admiração era pelo locutor esportivo que subsistiu ao pós guerra e na verdade nos tempos em que o rádio reinava absoluto o narrador desse espetáculo merecia o mesmo respeito que o grande cantor ou o galã de cinema e teatro mais festejado alcançava junto ao público.

Hoje as coisas mudaram muito pelo extraordinário número de narradores esportivos em quase todos os países, mas principalmente no Brasil onde a televisão vai pouco a pouco fechando o caminho para os narradores de rádio que mesmo assim fazem do mesmo a escola para seu desenvolvimento.

Carósio, lembro-me, sofreu um pequeno acidente ao caminhar em direção à cabine que ocuparia no verdadeiro subterrâneo que se percorria nas entranhas do Maracanã para ocupar uma das poucas cabines de transmissão.

Bateu a testa numa das passagens mais baixas (era um homem magro e alto) e teve que ser medicado e por pouco não conseguiu transmitir o espetáculo.

Contam que Nicoló Carósio foi também quem levou pessoalmente aos jogadores da Itália antes da Copa de 1934 a mensagem de Mussolini simplesmente com estes dizeres: “Vencer ou Morrer”.

Lembro que as transmissões europeias eram muito diferentes das brasileiras, lentas, comentadas e sem o entusiasmo que sempre foi o principal tempero na narração dos profissionais brasileiros.

Mas, não só de Nicoló Carósio viviam os governos ditatoriais.

Em Portugal havia Arthur Agostinho, o locutor oficial da Rádio Nacional de Lisboa e também bastante afinado com o governo Salazar.

Muitos diziam que Arthur era, inclusive, membro da PIBE, a terrível polícia política do governo português.

Arthur, gordo, brincalhão, era uma figura que se fazia notar e sempre recebia os seus colegas brasileiros quando em Portugal com fineza e cavalheirismo.

Alguns dos nossos falavam em congraçamento, outros em estreita vigilância no desempenho de sua função que não era apenas a de narrar futebol.

Mas, ao microfone era antes de tudo um porta-voz do governo narrando jogos de sua seleção ou os grandes cotejos entre clubes de seu país.

Logo após a queda da ditadura portuguesa, a exemplo do Professor Marcelo Caetano, o sucessor de Salazar, Arthur Agostinho transferiu-se as pressas para o Brasil e com seus amigos do Rio de Janeiro aqui foi se arranjando, mas jamais como locutor esportivo.

Interessante que o português falado no Brasil ganha campo em Portugal, mas a recíproca não é verdadeira.

Wilson Brasil, comentarista vibrante, combativo, deixou o Brasil e foi fazer sucesso no rádio português dentro de sua função, mas isso já depois do término do período ditatorial naquele país.

Na Europa, notadamente nos países do Leste Europeu e onde as emissoras oficiais duraram ainda por mais tempo no pós guerra cada país tinha em geral o seu locutor chapa branca.

Outro narrador que ganhou grande notoriedade e para muitos se portava como figura do governo foi já em época moderna o argentino José Maria Munhoz, com destaque para a Copa de 1978 e vencida por seu país.

Era, porém, diferente já que Munhoz contava com a concorrência de inúmeros outros e o rádio na Argentina tinha o mesmo modelo brasileiro.

No Uruguai o grande nome das narrações esportivas era Carlos Solé, que conheci na Rádio Sarandi desde minhas primeiras viagens a Montevideo.

Solé fora a grande voz uruguaia na conquista da Copa de 1950 e seu prestígio se rivalizava com o de Júlio Sosa o maior cantor de tangos da região platina depois de Carlos Gardel e que embora fosse ídolo na Argentina era uruguaio de nascimento.

Interessante esse aspecto: grandes ídolos argentinos nasceram no Uruguai ou em outros países vizinhos, como Leguisamo, chileno, o jóquei de maior prestígio em Palermo, como o músico e compositor Francisco Canaro, o autor de Madreselva (Madressilva) e condutor do mais famoso conjunto de tangos de sua época e ainda Gerardo Matos Rodrigues, autor do imortal Caminito, tango tão famoso que se tornou referência turística a local bastante visitado em Buenos Aires, o Camino Caminito.

Tanto o autor como a composição eram uruguaios legítimos.

Canaro, nome de rua em Buenos Aires nasceu no Uruguai, filho de italianos e só se naturalizou argentino no fim da vida.

E Carlos Gardel, o mais famoso intérprete original dessas canções teria nascido onde?

Uns dizem que foi em Tacuarembó, no Uruguai, outros que em Marselha, na França e que seu nome em realidade era Gardés e não Gardel, mas pela paternidade do mesmo os argentinos vão à luta.

Um dos argumentos que os argentinos usavam para mostrar que Gardel era filho do país foi o fato dele visitar e cantar para seus jogadores antes da final contra o Uruguai na Copa de 1930, a primeira delas.

Depois, soube-se que ele fizera o mesmo com os uruguaios e a discussão persiste até hoje.

O certo é que se estou falando de locutores-esportivos é bom lembrar um outro portenho que era muito ouvido no Brasil nos velhos tempos.

Nos anos 1940 quando o dial de um aparelho não tinha esse imenso número de emissoras dos dias atuais e que vai obrigar o governo brasileiro tomar medidas para transformar AMs em FMs o rádio do sul do continente penetrava no interior paulista com muito boa qualidade de som.

Assim é que me acostumei a ouvir transmissões por Fioravanti, da rádio Belgrano de Buenos Aires e lembro-me da frase dístico em que os locutores auxiliares depois de suas falas terminavam sempre com um “adelante, Fioravanti”.

Se comecei falando dos locutores oficiais em algumas emissoras do rádio estatal na Europa e vou mudando para uma espécie de homenagens a alguns nomes famosos na América do Sul não posso deixar de lado o chileno Gustavo Aguirre, “El negro Aguirre”, como o chamavam em Santiago.

Aguirre era um médico que também se dedicava ao grito de gol.

E ainda Sérgio Livingstone, goleiro da seleção chilena na Copa do Mundo de 1950, apenas que era o comentarista enquanto Aguirre era relator.

Alguns no Brasil marcaram época nesse período e me acostumei em minha infância a ouvir Rebelo Junior, o homem do gol inconfundível, Aurélio Campos, Jorge Cury, Antônio Cordeiro e, Oduvaldo Cozzi e alguns outros que me inclinaram para uma paixão profunda pela função.

O grande Pedro Luiz, de quem fui contemporâneo só vim a ouvir quando iniciei meus passos no rádio.

Mas, o primeiro locutor esportivo que deixou seu nome marcado por ter sido o único a narrar pela primeira vez uma Copa do Mundo foi o paulista Gagliano Neto, ao transmitir por uma cadeia de emissoras a Copa do Mundo de 1938.

Mesmo sendo uma transmissão sem influências governamentais (o Brasil já estava em plena ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas) Gagliano causou grande confusão no Rio de Janeiro quando da transmissão do cotejo semifinal entre Itália 2 Brasil 1.

Como a Itália venceu com um pênalti imensamente contestado pelos jogadores brasileiros e pela transmissão de Gagliano (Domingos da Guia em Piola) o locutor aventou a possibilidade esdrúxula ao final da transmissão de que a partida poderia ser anulada.

Isso causou alvoroço e quebra-quebra na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro quando os fatos foram esclarecidos e foi lida a nota oficial falando que de forma alguma o jogo poderia ser anulado e o Brasil estava fora da final.

Locutores oficiais como o italiano Carósio ou o português Arthur Agostinho o Brasil, felizmente, nunca teve.

flavioaraujo

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