Memória: Roberto Miller Maia abre o jogo sobre a Brasil 2000 FM

Por Rodney Brocanelli

Há quase dez anos, publiquei uma entrevista com Roberto Miller Maia em uma revista eletrônica chamada Ruídos. Meses antes, ele tinha deixado o comando da Rádio Brasil 2000 FM (107,3Mhz) de forma surpreendente, causando assim a insatisfação de muitos fãs. Não por coincidência, a emissora entrou uma trajetória descendente. Hoje, sua frequência é ocupada pela Eldorado FM. Depois de um longo tempo fora do rádio, excetuando uma pequena passagem pela Rádio América AM, ele está de volta aos microfones, desta vez na UOL 89 FM, ao lado do parceiro Tatola.

Leia abaixo a íntegra da entrevista.

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A primeira pergunta é simples: quem é Roberto Maia?

Roberto Maia – Dos meus 43 anos de vida mais da metade foi ligado ao jornalismo, principalmente o jornalismo cultural enfocado basicamente na música. Foi um caminho natural, porque gostar de música sempre me fazia muito bem, e foi um caminho de sensibilização para mim. Minha formação primeiramente foi a de engenheiro eletrônico. A ligação entre a comunicação com a tecnologia é algo que eu já vislumbrava nos anos 70. Eu achava que num futuro essas coisas iriam estar muito ligadas e as pessoas que entendessem um pouco mais de tecnologia poderiam utilizá-la melhor nessa área da comunicação, dentro da área da mídia de massa. É o que está acontecendo agora, com essa questão da possibilidade de redes. A tecnologia hoje é um grande aliado para a democratização da comunicação, uma coisa que eu sempre gostei muito de fazer. Então eu comecei como engenheiro, depois por necessidade profissional me tornei jornalista e fiz faculdade. Eu comecei em rádio em 1977 na Rádio Cultura AM escrevendo textos. Depois, trabalhei em estúdios de gravação, fiz produção de discos e fiquei 14 anos na Brasil 2000.

Você foi um dos fundadores da rádio?

Maia – Praticamente isso, porque eu dava aula de comunicação na Faculdade Anhembi-Morumbi, tinha uma longa amizade com todos lá dentro e eles conheciam meu acervo musical, que eu estava começando. Eu fazia uma rádio interna no pátio, numa proposta de socialização dos alunos. Essa idéia deu tão certo que fui convidado para participar da rádio. No começo da Brasil 2000 eu cuidava de uns boletins sobre videotexto.

Em que ano e quais circunstâncias começou a rádio?

Maia – Foi em 1986, mas foi aos trancos e barrancos. Eu ainda não estava lá como diretor, fazia apenas algumas colaborações, como esses boletins. Na época a Anhembi-Morumbi tinha uma parceira com a Faculdade Ibero-Americana e isso dificultava muito para se fazer as coisas lá dentro da emissora. Numa sociedade acaba tendo esse tipo de problema: ou os dois são muito afinados esteticamente ou não, o que era o caso. Então a Brasil 2000 tinha uma linha mais neutra e nunca chegou a ser uma rádio efetivamente universitária, um projeto que depois eu pude conduzir.

Como é que se deu a virada na Brasil 2000?

Maia – A rádio naquela época tocava até pagode, numa visão errada de populismo. As pessoas achavam que o Brasil era vítima de um imperialismo musical vindo do exterior e o fato de tocar pagode seria uma forma de resistência. Eu pensei na questão de se dar um salto de popularidade, no sentido de dar uma abrangência maior e ter umas pinceladas de anarquia, nonsense, diferenciação para captar essas pessoas que estavam aí perdidas. E foi uma coisa certeira, muito bem-vinda, uma coisa necessária. Eu fiquei feliz com essa captação de ouvintes a partir dessa mescla de popularidade com diferenciação.

A proposta de se mudar a filosofia e fazer uma rádio underground foi aceita logo de cara?

Maia – Teve aquele problema da transição, de tirar aquele passado, aquelas coisas que tinham um certo ranço. Não foi fácil pegar uma rádio que tinha pagode e funk e transformar numa coisa alternativa. Essa idéia de ter uma diferenciação dentro do grande mercado acabou sendo aceita depois. O mercado gosta de algumas pessoas que o desafiem, por incrível que pareça. Uma das coisas que a Brasil 2000 sempre teve de muito positivo foi ser simpática a vários segmentos. A imprensa gostou, o mercado respondeu bem, os artistas também, isso porque era uma rádio muito sincera, trabalhávamos com pessoas sem vícios. Isso nos ajudou a crescer.

Você se inspirou em algum modelo que já existia ou seguiu uma linha própria que estava na sua cabeça?

Maia – Basicamente não foi seguir um modelo ou outro, mas juntar várias possibilidades. Uma coisa que mais me atraia mesmo foi o conceito de “college radios”, uma coisa que mudou o mercado norte-americano, um dos mercados mais difíceis de serem mudados; mas isso aconteceu porque era uma rede em todos os Estados Unidos. A dureza aqui era fazer uma coisa isolada, uma espécie de oásis no mercado. Eu me inspirava mesmo nessa questão de pegar uma rádio e poder trabalhar com universitários. Queria tocar uma música que ninguém tava tocando, possibilitar que bandas novas aparecessem e novos valores em outras áreas culturais pudessem dar o seu recado. Eu gostaria que isso tivesse sido expandido, que outras faculdades tivessem comprado essa idéia. Eu acho que o grande mérito, mais do que a diferenciação da linguagem de alguns programas, foi o de a gente trabalhar
com pessoas muito novas, saindo da faculdade.

Explique o conceito de college radio.

Maia – Varia muito, mas a questão básica é que é uma coisa para o campus. Ela tem permissão oficial para funcionamento. É tudo feito pelos próprios alunos. O modo de transmissão pouco importa, pode ser por AM e até mesmo por fios mesmo que levam a programação para ser veiculada em caixas de som dentro dos dormitórios dos estudantes, que é onde eles passam a maior parte da vida deles. Isso é uma coisa interessante até porque é um país mais frio, as pessoas lá são mais estudiosas (risos). De uma certa maneira eles levam muito a sério esse período na universidade, assim como eles levam muito a sério o lazer na universidade. Tem desde transmissão por onda eletromagnética até transmissão por cabo, mas o importante mesmo é que está todo mundo ouvindo uma mensagem, isso é dinâmico.

Qual é a college radio mais proeminente?

Maia – Não existe. Lá o que ganha é a força vinda pela massa. São 500, 600… Nenhum DJ de college rádio fica famoso, mas o que acontece de legal é que todos exercitam alguma coisa e os mais ousados partem para o grande mercado. Aí, vai se trabalhar com música ou virar um profissional de rádio.

Voltando para a Brasil 2000, essa virada para o underground se deu em qual época? 

Maia – Eu entrei com essa idéia entre 1989 e 1990 e depois teve uma reformulação estrutural total, mas como a rádio era muito pobre em termos tecnológicos e financeiros o processo foi muito lento. Era uma emissora que não faturava nada, não tinha ibope. Foi uma reforma que aconteceu passo a passo, mas deu para fazer uma estrutura muito respeitada.

Quais as coisas que você destacaria dessa fase?

Maia – Aconteceram muitas experiências, muitas noovidades e uma coisa acabou complementando a outra. Fiz alguns programas muito interessantes que eu desenvolvi, mas que foram escutados somente por algumas pessoas e passaram despercebidos. Tinha um programa que eu fazia à noite chamado Noites Futuristas. Era uma auto-entrevista de um músico contando a sua vida, um documentário sonoro. As rádios da Alemanha vinham fazendo isso de se criar ambientações sonoras e foi uma fonte de inspiração. É uma coisa que eu gostaria de retomar em termos de rádio. Uma coisa que eu estava achando brilhante era o de expandir o papel da emissora dentro da realização de shows. Estávamos conseguindo abrir espaços para bandas do exterior virem fazer shows aqui. Era interessante que acabávamos colocando bandas underground em locais que não faziam parte do circuito, como a Broadway, e pensávamos expandir isso para outros lugares aqui de São Paulo.

E em termos musicais?

Maia – Nós trouxemos essa coisa de gravadoras novas e independentes, foi uma revolução invisível. Fui responsável pelo lançamento de coisas que nunca iriam sair aqui no Brasil. O Creed não tinha nem gravadora aqui no Brasil. Cheguei a procurar uma representação para a banda aqui. Eles tinham contrato com a Sony, mas o contrato de distribuição deles não abrangia a América Latina. Teve o disco do Santana, o “Supernatural”. Era um disco que iria ser lançado aqui, mas os próprios caras da gravadora não acreditavam. Eu fiz com que eles investissem no álbum. Eu também procurei representação para a Sub Pop no Brasil depois do estouro do Grunge. Fiz um esforço danado para trazer o Mangue Beat para São Paulo, que foi através de um festival chamado Rec Beat. Foi uma loucura, muito suado. Veio o Chico Science quando ninguém nem sabia falar o nome dele. Esse movimento liderado por ele foi uma das coisas mais interessantes que apareceu, mas não foi devidamente explorada como devia.

Vocês chegaram a ter um selo para lançar discos, não?

Maia – Pois é, tentamos fazer uma coisa. O primeiro foi o do Nuno Mindeles Na verdade, eu o DJ Magoo fizemos uma vaquinha e bancamos o lançamento de um álbum dele, isso em 1991. E colocamos lá o selo Brasil 2000 para ajudar na divulgação. Depois lançamos o Clip Independente, que era um programa com bandas novas e todos tocavam ao vivo no estúdio da emissora. Nenhuma chegou a dar um passo maior na carreira, mas dá para destacar Anjo dos Becos e Malaco Soul, que é um grupo que hoje toca na noite. Tinha também A Casa Caiu, de um cara bem talentoso, mas que era meio maluco, o Paulo De Tarso.

E a resposta do mercado publicitário para essas iniciativas?

Maia – Nessa primeira fase foi difícil. Os empresários que ouviam tinham uma simpatia pela Brasil 2000 e ajudavam com anúncios. Isso eu vejo isso muito hoje na Kiss FM: eles têm uma dificuldade tremenda de sobreviver comercialmente. Mas como não sei quem é dono de não sei o que lá ouve a rádio acaba dando uma forcinha, mas isso acaba não sendo suficiente porque os custos de uma rádio são muito altos. Uma emissora tem uma despesa mensal de R$ 40 a R$ 50 mil, dependendo de sua estrutura, e há um montante de investimento na casa de R$ 1 milhão. Os equipamentos são muito caros, o consumo de energia é alto e caro.

 E a audiência?

Maia – O problema é que tínhamos uma estrutura muito precária. Quem chegasse na Rua Heitor Penteado, onde ficava a rádio, não conseguia ver a antena porque ela ficava coberta por um monte de prédios. Nossa antena era pequena, bem mais baixa que os prédios, então era impossível de se ouvir. O sinal saía por trás dos prédios, dava uma volta e nunca chegava na região da Av. Paulista, na Zona Sul, no bairro do Jabaquara. Ficávamos presos à zona oeste. Enfim, nosso alcance era limitado e não tínhamos como fazer milagres. Nosso transmissor era de 5 kW. Com um transmissor que era ruim, antena ruim, tudo, então não tinha como… Qualquer rádio transmitia mais do que a gente. Nós ficávamos com tudo isso contra nossa estrutura. Se a nossa antena ficasse na Paulista seria melhor.

E a questão do jabá. Como a Brasil 2000 lidava com isso?

Maia – O consumidor em geral não sabe o que o preço do disco significa, mas você tem embutido no valor uma porcentagem de custo e a verba de marketing. Entenda marketing como quiser, esse dinheiro pode ser usado para o que se quiser: fazer cartazes, levar a banda para entrevistas, fazer camisetas, adesivos etc. De um disco que vende 100 mil cópias, pelo menos o dinheiro lucrado da venda de 20 mil cópias é para isso.

É uma conta meio maluca, isso vira um dinheiro em caixa. Se você tem uma banda nova não vai possuir essa verba porque ninguém te conhece, então se pega emprestado de um conjunto muito famoso. Por isso é que se fala erroneamente que uma banda consagrada ajuda a lançar bandas novas. Não é isso, é porque a verba que sobrou para divulgar um cara que vendeu dois milhões de cópias vai ser usada para divulgar a banda nova. Essa verba é o que se convencionou a se chamar de jabá porque ela é utilizada ao bel prazer do diretor de marketing. Dá para se fazer todo tipo de coisa com essa verba: comprar um Mercedes para sortear na emissora ou então levar o ouvinte para ver um show do U2 em Miami e depois passear com o Bono de limusine, por exemplo. Tudo isso é fruto dessa verba de marketing que o pessoal chama de jabá. Isso em outras épocas entrava no bolso de alguém diretamente, sem constrangimento, para o programador ou qualquer pessoa que mande na rádio. Essa verba de marketing virou um conforto, faz-se tudo para a rádio com essa grana, tornou-se uma facilidade para quem trabalha. E qual a moeda disso? Divulgar o determinado artista.

Não existe o estar pagando para tocar, mas existe um acordo de cavalheiros. Como o U2 está dando ao ouvinte da rádio uma oportunidade de uma promoção que leva o sujeito para Miami, em contrapartida tem que se mostrar o trabalho dos caras. Por que uma banda fica famosa? Tem sempre aquele trabalho de marketing. Por mais que uma banda seja brilhante ou excelente alguém precisou falar sobre ela, instigar as pessoas a gostarem daquilo. E também existem as armações, que não duram nada. Se a banda for ruim, não vai adiantar. Tem que existir um mínimo de talento, de empatia com aquele grupo de pessoas a quem você vai oferecer esse produto. Isso tudo deveria ser uma coisa mais clara, ficou uma coisa obscura durante todos esses anos. Se tudo fosse às claras, não existiria corrupção.

E a entrada do Tatola, como aconteceu? 

Maia – Eu o conhecia há muito tempo, ele trabalhava em gravadora, tinha o Não Religião. O Tatola respeitava o meu trabalho, sempre dizia que eu era o crítico de que ele mais gostava pelo fato de eu ser o menos radical e mais abrangente. A gente conversava muito sobre música e ele me pedia dicas. O Tatola tinha saído da 89 FM e nos encontramos numa outra circunstância. Eu não sei lidar bem com o mercado fonográfico, não sei conversar essa conversa deles, não tinha paciência para ouvir que tem que tocar Pink Floyd, não tenho mesmo paciência para isso. Eu acabava sendo perigoso para uma coisa mais de conversar com o mercado.

E o Tatola veio para isso, para ser a cara da Brasil 2000 no mercado. E eu continuava na minha área. Acabou sendo uma equação incessante. No nosso programa o que funcionava é o fato de cada um ter a sua opinião. Tínhamos opiniões diferentes. A gente discordava mesmo e não tínhamos problema nisso. É arriscada uma coisa dessas, pois quando se faz um programa onde há discordâncias pode dar briga porque um vai entrar no mundo infantil do outro. Tínhamos diferenças ideológicas fortes, de gosto, mas afinidades profissionais muito grandes.

Nessa época em que o Tatola entrou, a rádio mudou um pouco sua filosofia…

Maia – Foi um passo no sentindo de se angariar mais ouvintes. Nós conseguimos um bom transmissor e eu queria chegar cada vez mais na audiência jovem. Naquela época houve um salto pop de mercado. O que tínhamos de combater, no bom sentido, eram expressões justamente pops, as boys bands, o axé. Então tivemos que utilizar ferramentas extremamente pops também.

Acabamos colocando bandas mais aceitáveis para conseguir isso. Então, a rádio atraía as pessoas com mais Deep Purple, Pink Floyd, Led Zeppelin, com canções conhecidas e misturávamos com coisas novas, mais underground.

Hoje se reclama de que o rádio sempre toca as mesmas músicas e que não há mais ousadia. De quem é a culpa? Dos ouvintes ou dos programadores?

Maia – Ambos, primeiro porque os programadores de rádio não conhecem música. São pessoas que vão parar nas emissoras por algum motivo que não é a vocação. Ou então são pessoas queriam exercer a função de locutor e não conseguiram. Todo mundo entra numa emissora querendo ser locutor. Se em troca se oferece uma vaga de produtor o fulano se assusta, nem sabe o que é isso e recusa. O que se quer mesmo é falar, porque existe a imagem de que quem está falando manda em tudo, mas na verdade não manda. Então o programador não conhece muito, o coordenador conhece menos ainda, existe a pressão das gravadoras. A programação de rádio fica aquela coisa pré-fabricada e não se ousa nunca, pois quem ousar está mais arriscado a ficar sozinho.

O ouvinte, por incrível que pareça, compactua com esse tipo de coisa. Se é tocada uma coisa muito diferente, ele troca de estação e vai buscar uma emissora que tenha alguma música conhecida na qual ele possa cantar junto, tem muito isso. É uma coisa difícil de equacionar, mas é verdade. Deve existir um feeling. É a mesma coisa que um show, nenhuma banda dá um show só com hits, a não ser Rolling Stones com seus 40 anos de estrada. No caso de uma banda que não tem esse passado, ela deve misturar os hits com coisas novas até compor o show. E tem que fazer bem isso.

Como é que você encarava a concorrência?

Maia – O rádio no Brasil é autoral. É como o cinema de diretor famoso, ele conduz as coisas como quer. Era o que eu fazia na Brasil 2000. Agora, as rádios mais empresariais, como a 89 FM, estão acima de qualquer oscilação. Tem uma ou outra coisa nova, mas acaba sendo muito padronizado, muito cerceado pelos limites do mercado. Quando se é mais autoral, não se tem essa preocupação com a concorrência, uma vez que.eles não estão pensando no novo, mas no mercado, como se manter nele.

Quando se quer ousar, a preocupação é outra, mais estética, em trazer coisas novas: programas novos, bandas novas. Não tem ninguém preocupado na 89 FM em comprar discos, saber qual é banda que tem um potencial porque a divulgação da gravadora vai trazer isso pronto para ele. A 89 FM tem o mérito de se manter acima dos modismos, apesar de algumas fases mais horríveis. Por outro lado, a rádio teve algumas fases mais ousadas, como na época do Fábio Massari.

Nessa segunda fase da rádio, depois da vinda do Tatola, você criou novos programas. Fale um pouco sobre eles.

Maia – Eu queria fazer coisas que diferenciassem do que estava acontecendo nas outras rádios, como a idéia do Lançamento Nosso de Cada Dia. Pegamos um horário no qual a regra era tocar músicas conhecidas e pouco papo e fizemos o contrário. Era uma opção e deu certo, porque alguém vai parar para ouvir. No mínimo os ouvintes iriam escutar para xingar, tipo: “pô, esses caras não param mais de falar!”.

Foi também a idéia do Clube das Mulheres. Eu achei interessante acordar com mulheres no ar. Queria quebrar um pouco o conceito de que as rádios de rock eram uma coisa mais masculina. E no lugar coloquei as mulheres falando o que os homens queriam ouvir delas. Unimos dois perfis: o da Marcela, desbocada, que não tinha papas na língua e não tinha um verniz intelectual para ficar filtrando o que ia dizer, com o da Fabi, que é jornalista formada. Elas interagiam com o ouvinte, sendo mães, vamps, coitadas… A química entre a Fabi e a Marcela era uma coisa muito legal.

A Brasil 2000 era uma das poucas emissoras que abriam espaço para o ouvinte…

Maia – Nós nunca atendemos o ouvinte fora do ar para perguntar o que ele queria dizer; no máximo, era para pedir que ele esperasse um pouco. Hoje na rádio alguns telefonemas de ouvintes são gravados para serem colocados no ar depois. Nós tínhamos um método interessante, que era o de colocar o ouvinte no ar sozinho com dois apresentadores. Isso servia para abafar qualquer tipo de imprevisto, como o fulano xingar. Mas o nosso segredo era a espontaneidade. Nós que estávamos no ar não sabíamos o que iria acontecer. A idéia do Discagem Direta do Ouvinte era do cara do outro lado mostrar o que ele queria ouvir e falar o que ele quisesse, criticar alguma coisa. Mas obviamente vai viciando um pouco, as mesmas pessoas acabam ligando e acaba cerceando um pouco os outros ouvintes que gostariam de ligar.

E o Garagem?

Maia – Eu conhecia o André Barcinski desde a época em que ele lançou o livro dele, o Barulho. Ele e o André Forastieri já tinham feito um programa ao vivo na Brasil 2000 com o Joey Ramone, em 1991, numa das vezes em que ele esteve no Brasil, e foi uma loucura. Daí eles tinham ido para a Gazeta FM, numa experiência que acabou sendo traumática para eles porque tiveram de sair de lá meio às pressas. Eu lembro que aconteceram varias pressões lá. Muito tempo depois, eles retomaram a idéia do programa, levaram o projeto a várias emissoras e eles acertaram conosco. As pessoas que se ofendem com eles são muito infantis; eu acho que eles são necessários, saudáveis e engraçados. Eu gostava mais de ouvir o falatório deles em vez das músicas que tocavam no programa.

Vocês chegaram a ter algum tipo de problema por causa do Garagem? Pressão de gravadora, coisas do tipo?

Maia – Não, o único episódio que teve foi com o Nando Reis, que xingou os caras no programa do João Gordo na MTV. Eu achei isso uma bobagem da parte dele. Penso que agora ele não teria mais essa postura. Outro dia eu vi os Titãs naquele programa do Marcos Mion, o Descontrole. O Mion estava detonando a banda e eles lá junto, dando risada. Se fosse há algum tempo, eles achariam isso o fim da picada. Nós vivíamos brincando com o pessoal do Gagarem e vice-versa. Quando o André virou editor do Folhateen, a gente dedicou um programa inteiro a ele numa homenagem. Da mesma forma, quando ele saiu a gente começou a criticar o caderno. Tudo isso era de brincadeira, uma coisa de brincar com a gente mesmo. A gente gozava muito da cara dos Titãs. Na parada, a gente dizia “não agüento mais esse primeiro lugar” ou então “pô, essa música tocando de novo!”, o tipo de coisa que todo mundo que trabalha em rádio tem vontade de dizer.

Com todo esse trabalho desenvolvido nesses 14 anos, programas de sucesso, experimentações de linguagem, tudo isso que fez a fama da Brasil 2000, por que você acabou saindo? 

Maia – Primeiramente aconteceu um desentendimento do Tatola com a diretoria, que acabou virando uma coisa muito pessoal. Como o Tatola fazia a parte comercial da rádio, ele tinha direito uma porcentagem na receita da rádio. Era um contrato de risco, quanto mais a rádio faturava, mais ele ganhava. Ele quis refazer o acordo, numa tentativa de reajustar esse percentual, e houve a briga. Ele acabou não continuando. Existem versões mirabolantes, mas o mais incrível é que foi uma coisa besta, uma briga de comadres, uma coisa estúpida. Trabalhar com o Tatola era bom. Era uma das pessoas com quem mais me entendia profissionalmente, apesar de termos diferenças totais. Ele era aberto ao meu discurso anarquista-revolucionário e me aceitava como crítico.

Foi uma enorme tristeza acabar com a dupla, ela merecia um pouco mais de sobrevida para fazer um pouco mais do que queríamos fazer. Depois da saída dele, continuei fazendo meu trabalho e queria retomar um pouco o experimentalismo. Agora que eu tinha uma antena melhor, um alcance melhor, um público maior, pensei em porque não tirar os Smoke In The Waters da vida  e colocar coisas mais novas ou diferentes. Daí eu tomei conhecimento indiretamente da contratação do Lélio Márcio Teixeira para administrar a rádio e eu achei isso uma atitude muito estranha e arbitrária. Ele até é um amigo meu fora do meio, mas achei estranho a diretoria, ligada à Faculdade, contratar uma pessoa sem que eu soubesse. E foi por isso que eu saí.

 O fato do Lélio ter mantido muito do que você criou na Brasil 2000 foi uma vitória sua?

Maia – É como você ter um restaurante no qual sai o cozinheiro chefe e todo mundo vai sentir que o sabor é diferente. Eu acho o Kid Vinil uma pessoa brilhante, não tenho nada a falar contra ele, mas de jeito nenhum um programa do estilo dele vai preencher a lacuna do era o Lançamento Nosso de Cada Dia. Não era um programa técnico, não era um programa para quem queria conhecer as músicas. A idéia do programa era a ironia. O que falta na Brasil 2000 hoje não é o Lançamento, mas era o espírito do programa.

A rádio hoje está querendo reviver alguns programas, algumas coisas em termos de parada musical que fazíamos, mas é por aí. Tem que enterrar tudo e mudar, tirar o nome de Sessão da Tarde, mudar… Do contrário vai ficar a ameaça que a nova direção ainda não assumiu, que ela está com medo. O interesse do Lélio é outro, é uma questão de afinidade. E também a universidade não quer perder aquilo que ela conseguiu. É uma rádio respeitada pelo universitário, tem uma certa simpatia. O Lélio se tornou um cara administrativo, que não dá muito palpite na programação, a não ser ouvir o que as gravadoras querem. Ele não tem o instrumental, nem a vontade de mudar. O que ele quer fazer é o programa de futebol.

Você tem alguma inimizade com o Lélio?

Maia – Tenho mágoa apenas com as pessoas que o colocaram lá na emissora sem me falar nada. Acho ele interessante naquilo que faz, mas se eu quisesse trabalhar com ele já o teria chamado há muito tempo. Quando eu e o Tatola estávamos na Brasil 2000, ele nos procurou logo depois que ele saiu da 97 FM, e uma das idéias dele era colocar aquele programa de futebol no horário  da Voz do Brasil logo após o 2000 Volts, mas não tinha nada a ver… Nós fizemos alguns programas de futebol com o Marcelo Frommer e o Casagrande, mas era uma outra coisa. Ouvíamos o programa deles na 97 FM e achávamos sofrível. Não era o tipo de programa que a gente queria, muito menos o tipo de linguagem.

Por que você, com uma bagagem dessas, não tem convite de outras emissoras?

Maia – As pessoas sempre me perguntam isso. Quem trabalha em rádio não entende de música, acha que é uma coisa “empresarial”. E tem outro lance: as pessoas acham que quem tem uma especialidade como eu é uma coisa muito cara
e também não tem como encaixar naquele buraquinho onde querem colocar. Enfim, convite nem de rádio comunitária (risos).

maia